20100304

Dois Num Só (Parte #03 - Fim)

Era um só corpo se movimentando e sentindo no ritmo da pulsação sanguínea. E o sangue corria quente por entre aquelas veias. Um só corpo, quase uma só alma.
Durante todo o resto do tempo, os dois, que eram um só agora, estiveram finalmente num mundo só deles. Ninguém mais entrava naquele mundo. Só o corpo único dos dois estava no centro daquela esfera libidinosa e venusiana que se formara ali. Era isso já suficiente.
O tempo já chegava ao fim. E eles ainda tinham muito que se entregar um ao outro. Eram como crianças num pote de doce. Queriam tudo naquele mesmo tempo. Queriam se jogar na piscina de água fresca a limpa num dia quente de verão. Queriam correr no campo verde e colorido numa manhã de primavera. Queriam estar a noite inteira de outono admirando cada ângulo que a lua fazia por entre as nuvens. Queriam por fim se entregar nus a mais torrencial chuva de inverno e por lá abraçar Baco.
Olharam-se. O convite fora sem palavras. Já eram tanto só um que os pensamentos também se confundiam e então, qualquer pensar era dos dois. Dividiam autorias. E o pensamento único era de se esconder numa caverna e ali aproveitar todo furor de sentir que o corpo pode emanar. Estando cada vez mais, um dentro do outro, se camuflando, se fundindo. Naquela caverna, dois num só, gozando.
Naquele quarto frio. Sem identidade. Sem palavras. Comprado com pouco. Alugado pelo suficiente. Foi ali que jogaram numa brincadeira de tirar, de arrancar e estar sem. Brincaram de sentir de desejar e de gozar os prazeres da carne. Divertiram-se juntos. Amaram-se. Entenderam-se. Entregaram-se. Ejacularam toda a vontade que tinham no falo fervente. Muitos risos, muitos sons sem identificação, muitas palavras sussurradas, pouco se entende e muito realmente eram confissões que não eram para ser ouvidas.
No meio de todo aquele caos explosivo, um único diálogo, em sussurros nos pés dos ouvidos, quase como um choro, uma aflição, tatuou os dois corpos nus:

- Por favor, diz que isso não é um sonho...
- Se for, é um sonho à dois e eu só peço que nunca me acordem.

E nem repararam que lá fora a vida continuava. A vida deles se resumia estas pequenas palavras que acabaste de ler.

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