20100205

Noites de Insônia

Eu não estava com sono. Nem sentia necessidade de ir dormir. Mas algo me fez ir para a cama. Já deitado, olhava para o teto azul do quarto. Vinha-me na cabeça lembranças do dia. Nenhuma em especial. Lembrava do furo que havia levado. Lembrava da briga boba que só aumentava o ódio por tal indivíduo. Lembrava dos compromissos assumidos e dos cumpridos. Lembrava também dos compromissos assumidos e não cumpridos. Lembrava de passos que às vezes a gente esquece-se durante o dia. Tentei até lembrar o que havia comido no almoço. Via como meu dia era cheio, completo e recheado de novidades bobas e repetições irritantes. Então, eu não encontrava no meu dia espaço para mais nada.
Foi que me aproximei do pensamento mais real daquela noite de insônia. Como poderia eu querer mais da vida se eu mesmo não dou tal abertura? Não sei me explicar muito bem e nem quero, mas é que às vezes o que a gente tem não é o suficiente. E não digo o ter aqui e agora. Digo o ter, construção - quando a gente está caminhando para um objetivo. Parece que os objetivos para os quais estou caminhando ainda estão incompletos. Ainda falta um caminho, ainda falta uma estrada.
Mas acabo de lembrar que diversas vezes, há tempos atrás eu encontrei esse caminho. Eu vi a entrada para ele. Era um caminho peculiar para se tomar. Ao se olhar para a esquerda, viam-se árvores frutíferas carregadas prontas para uma colheita. Ao se olhar para a direita, viam-se campos verdes de flores silvestres e um agradável ar primaveril. Ao se olhar para cima, via-se um céu azul e muitas nuvens brancas como algodão doce desenhando no céu coelhos, ovelhas e máquinas de escrever. De certo, às vezes apareciam umas nuvens meio acinzentadas, mas que se faziam harmoniosas naquela tela que pintaram de fundo azul. E ainda me falta falar o que se sentia ao se olhar para baixo. Via-se o chão. Diferente de ao se olhar para a esquerda ou para direita, que pareciam tão distantes das mãos. Diferente de ao se olhar para o céu, tão intocável e imutável lá em cima. O chão, não. No chão eu era obrigado a estar, eu era obrigado a tocar. O chão, eu era obrigado a viver. E ele estava cheio de pedras mal organizadas. Estava cheio de poeira de terra batida. Tinham pedras tão grandes que teria de se pular muito alto para poder ultrapassar. E ainda viam-se frutas estragadas, podres, que se haviam desprendido das árvores e caído ao chão. Tinha também flores mortas, mas com caule cheio de espinhos vivos. Meus pés doíam só de pensar naqueles tantos obstáculos dos quais teria de me desvencilhar, não só com os pés, mas as mãos também sofreriam junto. E como se já não bastasse, logo na entrada do caminho havia uma placa: "Entre com os pés descalços."
É que eu usei o livre-arbítrio que me deram de presente e resolvi não entrar naquele caminho. Decidi seguir nas estradas onde eu estava. E agora? Agora eu teria de voltar alguns passos, perder algum tempo para encontrar novamente aquela entrada. Teria de arranjar tempo na minha vida para me dedicar a um outro, caminho. Estando tão entregue, teria de me desprender do que hoje sou para colar em mim novas partes e então ser algo novo. Não seria tão difícil. Aquela entrada tem algo espalhafatoso, algo atraente e carnavalesco que me atrai.
Mas já são quase três da manhã e eu preciso dormir. Já vi que terei de tomar o comprimido para poder dormir. Estou me tornando escravo. Escravo dos meus pensamentos que não me permitem cerrar os olhos e escravos dessa química maldita, que faz com que meus assombros saiam correndo, como se tivessem pernas. Essa dúvida, eu tiro na noite que vem.

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