20100225

Dois Num Só (Parte #01)

Se fosse eu começar do início, seria esta mais uma longa história. Porém, considerando que cada história, guarda em si pequenas histórias, vamos considerar o início desta voltando três dias. Conversas cotidianas, diálogos vazios, em certos momentos e diálogos internos em outros. Mas também havia momentos de diálogos tensos e cheios de conteúdo. Não lembro ao certo qual tipo de diálogo ocorria naquele momento, só lembro-me da surpresa que o menino, sem querer, deixou transparecer no olhar, quase como deixando transbordar a alma. O menino recebera um convite.
Antes daqueles tempos era já comum o menino receber convites, ainda mais de quem vinha. Mas naquelas alturas, os convites tinham já se tornado escasso. E aquele viera tão repentinamente, que ele nem soube ao certo o que pensar. O sim seria óbvio para qualquer espectador, até para ele. Mas como agora ele era personagem, as coisas já não eram tão fáceis, assim. Concordemos que até o mais óbvio, vindo da cabeça humana se torna o mais complexo possível. Essa é uma das razões pelas quais odeio ser humano.
Ao se pensar na resposta a dar ao convite, ele pensou três vezes. Se dissesse sim, teria um compromisso a cumprir e estaria se dispondo a ser alvo das flechas que o destino sisma sempre em tacar. Mas se o não fosse a resposta tudo estaria acabo e coisas acabadas não faziam muito o estilo dele - era pra lá com os assuntos inacabados para sempre ter o que pensar. E de certa forma, ele queria aceitar o convite. Por fim, pensando no sim, descobriu a facilidade com a qual um sim pode se tornar um não. Não que ele se transforme, mas em três dias, muitas coisas poderiam acontecer. O sim é sujeito à obstáculos e o não é sujeito à oportunidades. Logo, disse sim.
E como previu, muitas coisas realmente aconteceram em três dias. Outros convites surgiram, outras oportunidades se tornaram claras e uma intimação logo surgiu. Agora ele tinha um compromisso assumido e uma intimação para cumprir, simultaneamente. Para qualquer um aquela seria a oportunidade concreta para um grande empecilho, afinal, uma intimação foi feita para ser cumprida e ele não conseguiria estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas não para ele. Não era dado a desculpas. Mas também, quem o mandara ser tão... Geminiano?
Então, estamos no sábado. Faltam ainda três horas para ambos os compromissos. Ele está deitado, assistindo a um programa de entrevistas na televisão do quarto. E ainda não lhe era certo o destino. O programa terminou e ainda faltavam duas horas e meia. Levantou-se e caminhou até o banheiro, onde lavou-se. Sem motivos aparentes, parou em frente ao espelho e entregou-se à vaidade como quem se entrega a um amante - ainda não era a hora do amante. Abusou de sua imagem refletida, abusou da dúvida das cores e dos estilos. Transbordou em dúvida - pois assim é ego, que cega qualquer certeza. E levou ali, em todo aquele ritual uma das duas horas e meia que lhe faltavam. Agora são uma hora e trinta minutos. E ainda não havia batido sua decisão. Por trinta minutos sentou-se e pensava consigo mesmo mil coisas tendo como foco principal o caminho definitivo a seguir. Ao final dos trinta minutos, entregou-se aos ventos do destino. Esperava um sinal divino que lhe seguiria os paços.
Despediu-se dos familiares já com os pés na rua e desde aquele momento ficou esperto a qualquer sinal. Caminha até onde poderia chegar o transporte que o levaria para ambos os lugares. Já na metade do caminho, nenhum sinal visível. Até que o telefone em seu bolso tocou. Poderiam só ser duas pessoas e aquele seria o sinal. Mas não era. Era somente mais um convite. Mas logo viria o sinal...

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