Quarta-feira de um outono à tarde. Eram já vinte-pras-quatro. Duas amigas estão ao seu lado, rindo com olhares vazios e brilhantes, tentando não deixar transparecer a tristeza que lhes assolava a mente. Riam das coisas que aconteciam da porta daquele cômodo para fora. Elas eram quase como um noticiário semanal, sabe? Pena que a maior parte das notícias eram quase tão inúteis quanto as que passam nos telejornais da tarde. Mas a presença delas ali, o fazia bem, afinal já havia lido mais de dez livros e ouvido a discografia completa dos Mutantes e da Madonna um zilhão de vezes. Mas era só a presença que importava, o resto era desprezado.
Seus ouvidos já ouviam como vozes distantes o que elas diziam e gargalhavam, quase como num programa de humor, o bla-bla-bla delas era insignificante. Os olhos dele passeavam por todo o cômodo que o servia de abrigo durante todos aqueles torturantes dois meses, uma semana e cinco dias. Parece que tudo ali só colaborava com o tédio que se implantava em sua vida durante aquele tempo. Até mesmo a posição da janela era totalmente apropriada, numa parede a sua direita, mais alto que o corpo dele, estendido, fazendo com que a luz do sol se pondo amarelada passasse por cima dele. Um quarto de tamanho médio, o ideal para suas necessidades. Cores em tom pastel e azul bebê quase cinza dividiam a parede do meio para cima e do meio para baixo. Um sofá de dois lugares, já marcado pelos corpos que dormiam noites de insônia ali. Uma tevê pequena pendurada na parede de frente para o corpo dele, deitado naquela maca. Na porta, uma plaquinha com títulos grandes dizendo: "Centro Hospitalar Centro-Sul" seguidos de números em três dígitos e serviços de atendimento ao cliente. O cliente, impaciente, estava internado e sua vida parecia se esvair, assim como a cor de sua pele.
“Que horas têm?" Ele perguntou para as amigas que falavam feito matracas coisas que ele nunca se importou, mas sempre fingiu rir só para agradá-las. Mas agora ele não se importa mais e interrompia a conversa distante, deixando-as em surpreso silêncio por alguns segundos. "São quinze-pras-quatro" Elas responderam, meio que se entreolhando, querendo dizer algo que não poderiam. "Eu sei que ele vem!" Ele sussurrou de lado ignorando o que elas diziam com os olhos, sem nem precisar de palavras. E aquela frase o enchia o peito de esperança e tinha cada sílaba cheia de certeza. O problema era a pequena incerteza que ocupava o espaço vazio entre uma palavra e outra.
Parecia que cada respiração que ele dava seria a última. Mas tinha ainda a força para viver. E era justamente a espera que o massacrava o tempo que ainda lhe deixava vivo. Essa espera tinha já três semanas, três duras semanas em que toda quarta-feira poderia ser a primeira de toda a sua vida, ou a última, dependendo do ponto de vista. Toda quarta-feira desde as duas horas da tarde o coração dele palpitava mais forte e sua respiração era mais profunda a cada pessoa nova que adentrava aquele quarto morno de hospital. Ele esperava que entrasse aquele com quem passou os momentos onde chorou com mais intensidade e com quem sorriu da forma mais leve de todas. Mas que ele deixou para trás, pois sabia que nunca poderia levar tamanho sentimento adiante.
Não precisou de médico algum para que ele soubesse que aquela vida em que estava duraria pouco e logo, logo ele "partiria para outra" como dizem alguns por aí... E desde que começou a receber visitas, pedia a cada um que saía que mandasse um recado para aquele outro que estava em algum lugar do mundo do lado de fora daquele hospital: "Procura ele. Manda ele vir aqui. Diz que quero vê-lo, pela última vez. Manda ele vir aqui, por favor?!" E ficava no aguardo de uma resposta. Ninguém nunca voltava com um sim, nem com um não. Vozes trêmulas de mentiras diziam que não o havia encontrado. Sabiam que seria difícil d'ele vir, por isso muitos nem procuravam. Mas ele continuava vivo e esperando. Alguma hora ele iria entrar.
Dez-pras-quatro e as quatro, exatamente, ninguém mais poderia entrar. Acabava já o horário de visitas e as duas amigas estavam já se despedindo com um grande aperto no peito. Ele estava tão mal, naqueles últimos dias e só piorava. Parecia mesmo que algum último suspiro o levaria a alma. Tinham todo o cuidado ao se aproximar dele. Nenhuma dor poderia ser sentida, pois parecia que o boneca de porcelana desbotado deitado naquela maca era mais que frágil, era mais que sensível. As duas já estavam de costas, se preparando para sair quando pararam, quase congeladas de susto, na porta do quarto.
Vinha um rapaz moreno de sol com peito aberto porém com a cabeça baixa, passos largos quase que correndo, barba por fazer e cabelos que esqueceu de cortar, mochila nas costas de quem acabou de sair de algum lugar e um ar de coragem que se sentia ao longe. Elas atravessaram a porta, ainda desacreditadas, e ele entrou passando por elas como um foguete em câmera lenta e seus passos pesados de certezas o levaram até a beira daquela maca onde em frações de segundos toda a dureza e coragem estampada naqueles olhos durante os poucos segundos de caminhada da entrada até o corpo se desfazia num abraço seguido de lágrimas, de ambas as partes.
O abraço visto de longe, parecia que os tornavam um só. Parecia um abraço daqueles que nunca mais se iria largar. Era um último abraço. E logo logo viriam as últimas palavras... Era só terminar o tempo do abraço.
"Desculpa" e seguia-se o silêncio acalorado do arrependimento e do reencontro. "Por quê? Eu só queria saber o porquê?" Já se desvencilhavam, pois todas as emoções tinham de ser postas para fora naquele instante. "Eu te amei... eu ainda te amo tanto!" Os olhos daquele cujo corpo já não tinha mais tanta utilidade derramava lágrimas e mais lágrimas e sua boca balbuciava essas palavras como se elas saíssem do mais fundo poço de verdades. "Eu também te quero e te quis de tais formas..." Logo é interrompido, pois há pressa antes da morte. "É que eu te amei mais do que eu poderia. Eu te quis mais do que você poderia se dar para mim. Era um amor não correspondido, era uma ferida aberta e toda vez que estávamos juntos, era como uma madeira pontiaguda cutucando a ferida bem no centro e a fazendo sangrar ainda mais. Não é culpa sua, nem culpa minha. Aconteceu e eu nunca que poderia lhe dizer isso naquela época. Nossos beijos eram os melhores, nossa transa a mais bem gozada. Mas eu sentia que o meu amor por você poderia te sufocar a qualquer momento. E seu amor por mim, seria pouco para sobreviver a tamanho peso. Por isso eu sumi, por isso eu te deixei. Mas desde então, eu nunca mais amei ninguém, eu nunca mais tive ninguém, eu nunca mais pensei em alguém. Era você quem tomava conta das minhas insônias, era você quem estava lá ao meu lado secando as minhas lágrimas no meu sonho. Sempre foi você... sempre!" Essas palavras saíram sem muito pensar, sem muito raciocinar, elas fluíram com o sentir. E então, depois de ouvir tudo aquilo de olhos fechados e rosto encharcado de lágrimas ele se abaixou e encostou os lábios nele, beijando sua boca como o gesto mais puro e de maior gratidão que ele pudesse expressar. Então, os lábios se encontraram, os dentes se descerraram e as línguas invadiram um a boca do outro. As mãos passeavam entre os corpos apertando como se quisesse sentir ainda o sangue correndo para constatar a realidade. E então, quando enfim o beijo se foi fim, olhos nos olhos e uma última palavra: "Obrigado!" E então os aparelhos apitaram, seu coração havia parada de bater. E todo o hospital ouviu o grito, o urro de dor, o choro mais cheio de sentir que o rapaz moreno deu.
Seus ouvidos já ouviam como vozes distantes o que elas diziam e gargalhavam, quase como num programa de humor, o bla-bla-bla delas era insignificante. Os olhos dele passeavam por todo o cômodo que o servia de abrigo durante todos aqueles torturantes dois meses, uma semana e cinco dias. Parece que tudo ali só colaborava com o tédio que se implantava em sua vida durante aquele tempo. Até mesmo a posição da janela era totalmente apropriada, numa parede a sua direita, mais alto que o corpo dele, estendido, fazendo com que a luz do sol se pondo amarelada passasse por cima dele. Um quarto de tamanho médio, o ideal para suas necessidades. Cores em tom pastel e azul bebê quase cinza dividiam a parede do meio para cima e do meio para baixo. Um sofá de dois lugares, já marcado pelos corpos que dormiam noites de insônia ali. Uma tevê pequena pendurada na parede de frente para o corpo dele, deitado naquela maca. Na porta, uma plaquinha com títulos grandes dizendo: "Centro Hospitalar Centro-Sul" seguidos de números em três dígitos e serviços de atendimento ao cliente. O cliente, impaciente, estava internado e sua vida parecia se esvair, assim como a cor de sua pele.
“Que horas têm?" Ele perguntou para as amigas que falavam feito matracas coisas que ele nunca se importou, mas sempre fingiu rir só para agradá-las. Mas agora ele não se importa mais e interrompia a conversa distante, deixando-as em surpreso silêncio por alguns segundos. "São quinze-pras-quatro" Elas responderam, meio que se entreolhando, querendo dizer algo que não poderiam. "Eu sei que ele vem!" Ele sussurrou de lado ignorando o que elas diziam com os olhos, sem nem precisar de palavras. E aquela frase o enchia o peito de esperança e tinha cada sílaba cheia de certeza. O problema era a pequena incerteza que ocupava o espaço vazio entre uma palavra e outra.
Parecia que cada respiração que ele dava seria a última. Mas tinha ainda a força para viver. E era justamente a espera que o massacrava o tempo que ainda lhe deixava vivo. Essa espera tinha já três semanas, três duras semanas em que toda quarta-feira poderia ser a primeira de toda a sua vida, ou a última, dependendo do ponto de vista. Toda quarta-feira desde as duas horas da tarde o coração dele palpitava mais forte e sua respiração era mais profunda a cada pessoa nova que adentrava aquele quarto morno de hospital. Ele esperava que entrasse aquele com quem passou os momentos onde chorou com mais intensidade e com quem sorriu da forma mais leve de todas. Mas que ele deixou para trás, pois sabia que nunca poderia levar tamanho sentimento adiante.
Não precisou de médico algum para que ele soubesse que aquela vida em que estava duraria pouco e logo, logo ele "partiria para outra" como dizem alguns por aí... E desde que começou a receber visitas, pedia a cada um que saía que mandasse um recado para aquele outro que estava em algum lugar do mundo do lado de fora daquele hospital: "Procura ele. Manda ele vir aqui. Diz que quero vê-lo, pela última vez. Manda ele vir aqui, por favor?!" E ficava no aguardo de uma resposta. Ninguém nunca voltava com um sim, nem com um não. Vozes trêmulas de mentiras diziam que não o havia encontrado. Sabiam que seria difícil d'ele vir, por isso muitos nem procuravam. Mas ele continuava vivo e esperando. Alguma hora ele iria entrar.
Dez-pras-quatro e as quatro, exatamente, ninguém mais poderia entrar. Acabava já o horário de visitas e as duas amigas estavam já se despedindo com um grande aperto no peito. Ele estava tão mal, naqueles últimos dias e só piorava. Parecia mesmo que algum último suspiro o levaria a alma. Tinham todo o cuidado ao se aproximar dele. Nenhuma dor poderia ser sentida, pois parecia que o boneca de porcelana desbotado deitado naquela maca era mais que frágil, era mais que sensível. As duas já estavam de costas, se preparando para sair quando pararam, quase congeladas de susto, na porta do quarto.
Vinha um rapaz moreno de sol com peito aberto porém com a cabeça baixa, passos largos quase que correndo, barba por fazer e cabelos que esqueceu de cortar, mochila nas costas de quem acabou de sair de algum lugar e um ar de coragem que se sentia ao longe. Elas atravessaram a porta, ainda desacreditadas, e ele entrou passando por elas como um foguete em câmera lenta e seus passos pesados de certezas o levaram até a beira daquela maca onde em frações de segundos toda a dureza e coragem estampada naqueles olhos durante os poucos segundos de caminhada da entrada até o corpo se desfazia num abraço seguido de lágrimas, de ambas as partes.
O abraço visto de longe, parecia que os tornavam um só. Parecia um abraço daqueles que nunca mais se iria largar. Era um último abraço. E logo logo viriam as últimas palavras... Era só terminar o tempo do abraço.
"Desculpa" e seguia-se o silêncio acalorado do arrependimento e do reencontro. "Por quê? Eu só queria saber o porquê?" Já se desvencilhavam, pois todas as emoções tinham de ser postas para fora naquele instante. "Eu te amei... eu ainda te amo tanto!" Os olhos daquele cujo corpo já não tinha mais tanta utilidade derramava lágrimas e mais lágrimas e sua boca balbuciava essas palavras como se elas saíssem do mais fundo poço de verdades. "Eu também te quero e te quis de tais formas..." Logo é interrompido, pois há pressa antes da morte. "É que eu te amei mais do que eu poderia. Eu te quis mais do que você poderia se dar para mim. Era um amor não correspondido, era uma ferida aberta e toda vez que estávamos juntos, era como uma madeira pontiaguda cutucando a ferida bem no centro e a fazendo sangrar ainda mais. Não é culpa sua, nem culpa minha. Aconteceu e eu nunca que poderia lhe dizer isso naquela época. Nossos beijos eram os melhores, nossa transa a mais bem gozada. Mas eu sentia que o meu amor por você poderia te sufocar a qualquer momento. E seu amor por mim, seria pouco para sobreviver a tamanho peso. Por isso eu sumi, por isso eu te deixei. Mas desde então, eu nunca mais amei ninguém, eu nunca mais tive ninguém, eu nunca mais pensei em alguém. Era você quem tomava conta das minhas insônias, era você quem estava lá ao meu lado secando as minhas lágrimas no meu sonho. Sempre foi você... sempre!" Essas palavras saíram sem muito pensar, sem muito raciocinar, elas fluíram com o sentir. E então, depois de ouvir tudo aquilo de olhos fechados e rosto encharcado de lágrimas ele se abaixou e encostou os lábios nele, beijando sua boca como o gesto mais puro e de maior gratidão que ele pudesse expressar. Então, os lábios se encontraram, os dentes se descerraram e as línguas invadiram um a boca do outro. As mãos passeavam entre os corpos apertando como se quisesse sentir ainda o sangue correndo para constatar a realidade. E então, quando enfim o beijo se foi fim, olhos nos olhos e uma última palavra: "Obrigado!" E então os aparelhos apitaram, seu coração havia parada de bater. E todo o hospital ouviu o grito, o urro de dor, o choro mais cheio de sentir que o rapaz moreno deu.
Texto triste...e textos tristes são sempre belos...pq a tristeza tem um que de beleza?
ResponderExcluirAliás, um brinde às nossas tristezas... isso porque temos que tirar proveito dela de alguma forma com nossos escritos.