20100102

Elas e Roxanne

Mulher, com todas as suas letras, ela era mulher. Nunca estava sozinha, pois tinha um cheiro que atraía as abelhas ao seu pote de mel. Estampava um sorriso amarelado de fumo com lábios vermelhos num no rosto moreno, sempre. Tinha os olhos pintados, grandes e puxados. Tinha em uma mão a bebida que lhe acompanharia pela noite e na outra o fumo, às vezes tabaco, às vezes não. Não se importava em sentar-se, por enquanto. Estava inquieta e queria estar de pé, no meio da pista de dança. E então, aos poucos, iniciando pelo cabelo longo e negro que começava a movimentar graças às quebradas de quadril, ela soltava a libido que havia dentro dela. Ela era do tipo que não dançava conforme a música. Seus movimentos eram mais leves e espaçosos, deixando um tom sensual a todo aquele sutil ritual.
E então, no meio das luzes vermelhas. Vestindo-se daquelas luzes, como uma iluminação cênica veste um artista. Afinal, assim como estes, aquela mulher precisa vender-se, começando pelo seu corpo. E era com ele que ela estava a se expor na vitrina. Com seus vestidos curtos e meia-calça colorira, com decotes rasgados e sutiã decorado. Suas vestes também eram rituais. Ela tinha que pensar exatamente como estar se movimentando por dinheiro, sem estar como aquelas outras paradas nas esquinas, tão vulgar se entregando à falos. Ela não era vulgar, ela era sensível, sensitiva, sensual. Estava tudo na essência, no toque, nos sentidos. E cada movimento errado poderia cheirar mal, poderia estar ríspido e ela não queria correr esse risco, não esse.
Aquela mulher queria era outros riscos. E só estar negando o amor de outra, que se perde nas esquinas a lamentar, já era um risco. Isso, sem se falar o ato de se entregar totalmente a uma desconhecida. E ela se entregava mesmo. Ela entregava não só o corpo, ela entregava a palavra e os olhos. De forma a deixar-se beijar e envolver com as bocas, os braços e unhas verdes. Ela sabia que duraria somente aquela noite, uma lástima para aquelas que caíam fácil nas mãos dela. Essas que a pagavam sim se envolviam com ela e queriam sempre mais. Mas os lábios vermelhos, as luzes vermelhas, as meias coloridas não a permitiam ser de uma mulher só. Mas elas sempre a subestimam.
Umas ainda a oferecem jóias com frases feitas. Ela tinha o dom da palavra e estava vacinada contra. Diamantes? Os melhores amigos das mulheres, e eu já disse que acima de tudo, ela era mulher. E outra, como boa dama que era, não poderia fazer a desfeita de negar um presente. Aceitava desde os bombons e drinques baratos - sempre acompanhados de expectativas - até as frases de "eu te amo" com anéis de brilhantes e buquês de flores. A, pobres safadas. Mal sabem que nunca poderiam alcançar seu tímido coração.
Quando chegava em casa, das noites de diversão, liberdade e, logo, prazer, ela tirava o tênis vermelho e pisava leve no carpete macio. Cada passo muito firme, desmanchando o sorriso, forçado, deixando de lado a inquietação e acalmando os modos, borrando a maquiagem. Ajoelhava-se em frente à mesinha de cabeceira diante da imagem de uma mulher. Olhava para aquela fotografia antiga por grandes segundos. E então virava e no verso lia:

“Eu te deixei
Voce me deixou.
Minha alma se foi
Se foi meu coração.
Já não posso mais viver
Porque não posso te convercer
Que não te vendas, Roxanne"

A única por quem Roxanne poderia deixar de vestir-se das luzes vermelhas e dos coloridos provocantes, a única por quem Roxanne deixaria de estar nas pistas de dança, para encontrar outras que lhe pudessem sustentar, a única para quem Roxanne seria única. Está morta.