20091226

Um Mar de Céu

Como chegaram ali? Eu não sei. Só sei que ao longe via aqueles dois corpos molhados de suor, acabados jogados em meio a grama mal cortada do canteiro da praça junto a alguns mendigos. Não, aqueles não eram mendigos, não ao menos financeiramente. Eram mendigos, pois um mendigava o amor de um outro e o outro mendigava um pouco de atenção (de quem?). Logo, se camuflaram mendigos ali. Um deitado ao todo com o corpo no chão e o outro apoiando a cabeça no osso da clavícula daquele como um travesseiro.
Eu, como quem nada quer aproximei-me e estava ali, bem perto, invisível. Eu, o escritor, a alma amadora de um daqueles dois deploráveis jogados do mundo ao meio do chão. Acima deles um céu que transmutava em mar de cores azuis, amarelos e vermelhos com nuvens parecendo ondas. E naquelas ondas estavam ambos surfando nos céus.
Um surfava naquelas ondas de lágrimas e rancores, amores e desamores. Ele surfava pela paixão que sentia que era como um vento que o levava a fazer coisas que nunca havia pensado em fazer antes. Aquela paixão era seu levante. Através dela ele estava crescendo e mal percebia, mas estava na crista de uma nova onda. Afinal, estava ele vivendo o novo, um término para um início. Vivia ele o que deveria viver, como numa conta pendurada por ter errado o alvo antes. É que antes ele estava num barco à vela e a brisa era fraca. Agora lhe arrancaram as velas e o tufão fez o mar revolto. Tem de se aprender a viver no mar.
O Outro estava ali, pensava ele, só por estar. Mentira. Ele estava ali também surfando. Mas acontece que ele perdeu a prancha e agora está no alto mar nadando procurando-a. Coitado, não sabe nadar direito. No máximo bóia com braçadas desencontradas num mar de covardia. Era o medo que o fazia estar ali naquele mar. Aquele pobre que fez do mar sua morada. Não poderia ele morar em lugar mais incerto, em lugar mais duvidoso. Não poderia ele morar em lugar mais característico com ele. E sua eterna busca. Era sua vida. Buscar pela prancha que talvez tenha tido um dia. Mas havia tanto que a perdeu que agora nem lembrava mais como ela era. E então ficava nadando sem rumo, procurando um nada. Por fim, penso eu, que ele nadava só por nadar e por isso nadava cada vez mais desesperadamente, cada vez um nado mais vazio. E naquele dia, naquele céu em mar, ele nadou para o fundo. Deu em sua mente que talvez a prancha pudesse estar num possível fim do mar. Será que o mar tem fim? Agora ele já está nadando. E vai nadar cada vez mais profundo, cada vez mais pra dentro de si. Afogava-se dentro de suas interrogações.
Tão perturbador e belo em simultâneo vê-los surfar juntos. Estavam tão próximos que um olhava o outro e chagavam a se dar as mãos. E quando isso acontecia, ao menos para um desses, era como se sua prancha pudesse estar mais próxima.
Mas o céu estava já claro demais e era hora de deixarem de ser mendigos para ser dois a andar em direção a vida que os aguardava em terra firme.

0 Flores:

Postar um comentário

Jogue sua semente.