20090926

Livro de "Erres"

Ventou tanto, que me chegou um presente. Chegou assim, sem lenço na cabeça ou chinelos nos pés. Chegou assim, nos pêlos da pele e nos caracóis dos cabelos. E ficava o presente ali, isolado dos outros livros. Era um livro mais grosso. Sem muitas vírgulas. Com muitas interrogações. Mas não haviam exclamações. Naquele livro tudo suava mais madressilva. Faltava em mim a coragem de começar a lê-lo. Se até em sua capa eu já havia me aconchegado, imagine dentro de suas palavra, linhas, estrofes, capítulos, prólogos, introdução, índice. Mas aqueles outros, pesados já me cansavam os lombos. A visão já estava turva de tanta pontuação e de tanto tema transversal.
Foi quando que eu comecei a ler-te? Eu já queria tudo isso, mesmo. Ainda assim me suou surpreso.
Será que os outros me viram acariciar suas entrelinhas? E se viram, não importa. Eu comecei a ler-te e quero ler-te um pouco mais. Amanhã, quem sabe? E suas histórias pra mim ainda parecem tão insólitas, como água onde posso nadar. E eu andei por essa noite. Escorreguei por entre seus cachos caídos pela orelha.
O olhar dele tinha um algo. Ele se perdia dentro de si em pensamentos que se invertiam e tudo tinha uma graça toda enorme involta na névoa onde tudo pode ser ou simplesmente não é quando a gente quer exatamente que seja. Suas mãos são moles, são cumpridas e suas linhas se rompem bruscamente. Não é sua morte que me preocupa, pois um livro não morre.
Loucuras vi muitas dentro dos textos que sua bochecha balbuciava e nelas eu encontrei as minhas indagações também. E quando um louco se junta a outro louco? Eles se julgam normais e assim podem até dominar uma alegria plena, nunca mais sozinhos.

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