20090920

Lama

Andava ela. Pura ela. Limpa ela. Andava-se ela. Andava sem medo e sem preocupações de onde chegar. Andava, pois havia deixado algo para trás. Andava, pois havia deixado alguém para trás. Andava, pois havia se deixado para trás. Agora ela era pó ao vento, juntando ao chão com a água. Era lama ela. Lama sem sol, prestes a ser nunca moldada.
Andava sem direção, pois ainda tinha muito que deixar para trás. O vestido vermelho das mortes passadas, a meia preta dos rancores guardados. Às vezes ela soltava uns grunhidos e corria e se jogava ao chão. Era aquela raiva contida sendo bosta ao vento. Era aquela tristeza contida sendo bosta ao vento. Era tudo o que ela não fez sendo bosta ao vento. Às vezes ria-se da alegria das memórias, aquelas ela guardava bem para sempre ter motivos de andar. Às vezes ria-se da vergonha das memórias, aquelas ela guardava bem para sempre ter o que aprender.
E quando queria, ela girava. Girava para forçar o vento a soprar em sua volta. Girava para sentir o tempo girar. Girava para se sentir numa onda sintética, sem ao menos precisar de prece, olfato ou álcool. Somente girar já a fazia sentir todos os sentidos aguçados. Somente girar já a fazia deixar de sentir todos os sentidos. Somente girar bastava.
E andava para mais longe quando enfim tirou a roupa. Andava nua pelo chão de terra quando começou a chover. Andava nua quando sentiu a lama nos pés. Andava nua quando viu que não precisava mais andar. Andava nua quando parou de andar. Andava nua e agora se jogou no chão. Na lama se jogou se sujou e se desintegrou. Cada migalha dela foi para um canto. Incompleta levada pelo vento no espaço de quatro tempos musicais em dó menor, se é que essa nota existe.
Agora ela também é lama e quando o sol chegar, não importa. Lama seca na espera da próxima chuva. Mas nunca será algo além de pó e água juntos.

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