20090801

Proletáriado

Atrás do balcão por uma noite inteira. Este era o desafio que deveria ser enfrentado por aquele jovem rapaz que até então vivera de papos para o ar. Acostumado a grandes baladas e divertimento sem muito compromisso, ele sempre gostou de ser bem atendido; sempre reclamou quando encontrou um falha, pequena que fosse; nunca esteve satisfeito nem ao menos agradecido. Trabalho para ele era somente divertimento. Como nunca precisou se esforçar para ter algo na vida, quando queria algo, procurava a forma mais fácil de consegui-la. Poupar esforços, não por necessidade, mas por comodidade. Quem o pode recriminar?
Naquela noite de sexta-feira, os amigos dele tinham muitos programas para fazer e todos o convidaram. Era um daqueles fins de semana agitados, sabe? Mas era uma questão de honra e de evolução - ele precisava passar por aquilo e adquirir alguma experiência, algum conhecimento de vida. Se vestiu como se fosse mais um dia de diversão, precisava estar bem para enfrentar as possíveis barreiras encontradas. Para entrar no personagem que teria de interpretar (ou incorporar) pegou transporte público. Seu primeiro susto: como a passagem de ônibus era cara! Além de tudo, era desconfortável, mesmo vazio. Uma lata de sardinha, toda fechada, lacrada, dentro de freeser - o que é aquele ar-condicionado? O ar que você respira é pesado, parece estar sujo. O choque térmico é sem igual (talvez seja por isso que o número de resfriados esteja aumentando). Motoristas despreparados não param nos pontos certos e deixam passageiros de braços estendidos e estressados; atrasados para chegar e para sair. Fora o chacoalhar de montanha russa que parece estar desatarrachando cada parafuso daquele amontuado de alumínio. Mas algumas paisagens são gratificantes de se olhar pelo ângulo riscado, embaçado e sujo daquelas janelas de acrílico.
Quando finalmente chegou, encontrou o lugar onde teria de enfrentar seus medos e monstros. Um beira de estrada, pé de esquina sujo com velhos bêbados fedendo a doses de 51 sem limão e cigarros de filtro amarelo. O som ambiente, emanado por caixas de micro-sistem penduradas nas paredes, era um pagode feio e velho que só ouvira na sua infância quando passava de carro pelos guetos. Numa mesa, mulheres de terninho e calça vincada conversavam com copos de cerveja na mão e garrafas vazias espelhadas na mesa. Uma delas fumava um cigarro fino e grande, marcado pelo batom vermelho que quase não se via mais na boca desbotada da mulher de cabelos amarelos pintados. Outra usava mangas longas o gola alta verde abacate, sapato fechado de bica fino e salto alto, já todo arranhado e fosco pelo tempo. Daria uma bela fotografia, mas a realidade era curiosa. Todos estes estavam do lado de fora do estabelecimento empoeirado.
Do lado de dentro, duas mulheres. Uma de vestido curto negro, sandália plataforma de tiras brilhantes ao glitter, um piercing que reluzia ao seu nariz - fazendo contraste a imitação de diamante branco na pela tesa e marrom da face -, cabelos implantados e um olhar de quem está à caça. Uma outra, de minissaia jeans, blusa larga cinza que ficava presa na barriga grande de cerveja e ociosidade; esta parecia estar ali somente para sorrir, mas usa face parecia mais de uma escultura grega clássica - inexpressiva. E finalmente encontrou a baixela que fazia entrada ao lado mais cinzento do balcão.
continua...

0 Flores:

Postar um comentário

Jogue sua semente.