20090619

Ecstasy

Noite na praia de Ipanema. Pessoas andam exibindo seus belos cães de raça, admirando a bela paisagem carioca ou somente a conversar na varanda de suas casas - que se tornou a praia - e ignorando toda a existente beleza poética ali. Eu fazia o de sempre, sentado na areia com uma caneta na mão direita e uma agenda de anotações na mão esquerda. Aquela agenda na verdade havia se tornado um baú de memórias, segredos e confissões - nunca um diário, talvez uma porno-chanchada. Sinto uma vontade repentina de fumar. Tiro do bolso uma latinha metálica onde guardo a arma com a qual me suicido diariamente. Eu nunca tenho isqueiro. Olho para um lado, para o outro; impossível que numa praia noturna da zona sul ninguém emane uma fumaça, nem que seja proibida. Meu olfato me faz olhar para o lado quando vejo um homem pouco atraente tragando um aceso cigarro. Levanto-me, ando em sua direção e aceno-lhe mostrando meu cigarro. Sem trocar palavras ele me passa seu próprio cigarro para que eu pudesse ascender o meu. "Obrigado' é a única palavra que trocamos. Volto-me para sentar, por praticidade não sento-me onde estava e sim mais próximo dele, somente por praticidade.
O rapaz se levanta e vira as costas. Anda até o calçadão onde limpa os pés, batendo-os no chão e senta-se num dos diversos bancos de concreto espalhados para vestir seu tênis. Juro-lhe que não entendo porque as pessoas usam tênis, ainda mais numa praia. Levantou-se, atravessou uma pista de carros, logo atravessou correndo a outra. Entrou numa das diversas ruas que parecem ter sido copiadas e coladas seguidamente. Como num labirinto movimentado virou à esquerda, seguiu em frente, virou à direita e seguiu em frente novamente - tinha plena certeza de onde estava indo. Atravessou a rua e estava em frente a uma casa de festas. De dentro da casa um bafo quente e um som estridente que chegava a vibrar as portas de vidro. Puxou do bolso um convite e o entregou ao segurança que estava na porta. Passou por esse e teve de apresentar identidade a outro. Passou por esse e teve de parar para ser revistado por outro, que o apalpou os bolsos e as partes. Se livrou deste e pode finalmente entrar na festa.
Chegou-se devagar, encostou-se no bar e pediu um drink vermelho - ele gostava da cor. Olhou o ambiente, analisou. Percebeu primeiro uma garota sozinha sentada num sofá à direita; depois um casal que se beijava carinhosamente encostados numa coluna mais para a esquerda. O drink ficou pronto, não precisava pagar, era brinde da casa junto ao convite. Andou em direção ao sofá em que estava sentada a menina sozinha. Sentou-se afastado dela e ela logo se levantou. Ele pouco entendeu, mas também pouco se importou. Continuou sentado bebendo seu drink. Sentou-se ao seu lado um outro rapaz com uma garrafa de cerveja na mão e ofegante. "Caralho cara... tá foda a mulherada!" Ele continuou calado. Não queria fazer a linha simpático e ainda havia areia incomodando seus pés. O outro rapaz também pouco se importou com respostas.
O drink dele acabou, ele se levantou e foi em direção ao bar pedir uma cerveja. Com uma garrafa long-neck na mão, ele foi para a pista de dança. Se o que tocava era música, ele não sabia. mas gostava das batidas sincopadas e alteradas ritmicamente com fades de vozes ao fundo. Começou a se animar e se soltar na dança. Olhou fechados, braços para o alto balançando, o corpo solto acompanhando o ritmo múltiplo que o levava a fazer movimentos bucólicos. A luz baixa, quase nula, e as luzes coloridas dançantes colaboravam a este clima psicodélico. Sua garrafa estava fazia e novamente ele foi até o bar. No caminho de ida esbarrou-se numa menina, foi pedir-lhe desculpas e a outra foi logo lhe beijando. Ele a empurrou, não estava atrás daquilo aquela noite - e se estivesse não era aquele lugar que iria. E continuou andando, como se aquele fato não existisse, não alterou seu humor.
"Mais uma, por favor!" Gritou, tentando fazer com que sua voz fosse ouvida em meio a tamanho som e ruído. Logo veio a outra. E ele voltou para a pista de dança. Esta, parece que tomou como água. Um cara chegou mais próximo dele, ele abriu guarda e este sussurrou algo em seu ouvido e mostrou-lhe uma pílulas. Ele as olhou, seu olhar era duvidoso porém árduo. Tirou do bolso da frente da calça uma nota e deu nas mãos do cara que consecutivamente estendeu a outra com uma das dezenas de pílulas que tinha. Ele engoliu a pílula à seco. E continuou dançando, parece que esperando algo que demorava a chegar, talvez até ansioso. Foi quando saiu correndo até o bar e pediu uma garrafa de água - agora ele entendia porque as pessoas sempre estavam com garrafas d'água nas reaves. E tomou tudo em um único gole. Alguns minutos na pista de dança, aquele que fazia movimentos bucólicos ritmados, parecia tomado por uma energia que o fazia pular e dar socos e chutes no ar. Havia mudado por completo. Seus movimentos eram extravagantes, tanto que ao seu redor abriu-se um clareira. E assim ele foi durante muito tempo.
Repentino ele parou. Seus olhos abriram. Suas mãos abaixaram num ato instintivo até o lado esquerdo do peito. Sua boca se abriu e suas mãos foram até a garganta. As duas mãos envolvendo a garganta e os olhos esbugalhados, parecia puxar um ar que não entrava. Rodava, e parecia que procurava alguém. Realmente, o ar lhe faltava e ninguém se importava com ele. Ninguém o reparava agonizando ali no centro da clareira que aos poucos se fechava, pois ele não mais movimentava-se efusivamente. Se pôs de joelhos e parecia estar cada vez mais desesperado. As batidas ao fundo tapavam os ouvidos das pessoas; a luz quase nula as cegavam. Seus corpos dançantes não tinham mais tato e ninguém reparava aquele homem pouco atraente. O único que lhe prestou atenção, fora seu assassino potencial. Este cara logo meteu os pés para fora daquele lugar, como quem foge de um evidencial perigo e sumiu nas ruas escuras da madrugada de Ipanema. A esta altura, o rapaz agonizava ao chão. Uma garota que tropeçou nele o reparou largado ao relento e gritou, incitando mais gritos e novamente uma clareira se abre em torno do homem. Mas desta vez, pela falta de movimento.
Esta manhã li no jornal que ele morreu no hospital. Os médicos diagnosticaram intoxicação. Era filho de mãe viúva que trabalhava num banco. Seu pai era militar e morto. Sua mãe saiu na foto chorando e abria-se aspas para sua fala "Ele havia me contado que era gay e eu o havia expulsado de casa". A matéria satirizava a situação de ele estar num ambiente heterossexual - como se gays e heteros tivessem de viver e se divertir em locais completamente diferentes. Abria-se outras aspas a um que se dizia amigo íntimo: "Eu o amava tanto. Disse tanto para ele não ir a esta festa. Mas ele dizia já ter comprado os ingressos e precisava relaxar." Menos um que poderá me ceder o isqueiro. Quando descer, compro um isqueiro. Não posso viver dependendo de pessoas que morrem.

1 Flores:

  1. Que lindo...
    um lindo-triste...
    adoro o que leio aqui...

    pena que não nos vimos no rio...
    =(

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