20090515

Psicografia

O que sinto agora? Não sei. Já não é novidade eu não saber o que sinto. Julgo até normal, mas sempre tento decifrar e acabo em alguma conclusão. Mas isso que sinto agora, parece não ter nome, ainda não inventaram um nome para isso. É uma coisa estranha, que é até complicada para explicar.
Começa pelo olho que seca e se fixa; passa pela boca que se abre e se enche de saliva, parece que criando uma seiva mais consistente que um simples cuspe; Então você engole aquilo que mais parece não passar pela garganta, mas passa com certa dificuldade; chegando ali, no centro do peito, tem um músculo que bate mais marcado e mais lento e que mais parece que vai parar; e como um fio elétrico ligado a um interruptor, passa para os braços fazendo dobrar no cotovelo e cerrar nos pulsos; consecutivamente aquilo vai para o estômago, ali forma um bolo e você começa a identificar um pouco de cada sentimento conhecido ali se misturando - você sente o ódio do momento, a raiva da situação, uma mágoa inacabável, a decepção consigo mesmo, a dor dilacerante, rancor reprimido que ali revive, você sente amor se esvaindo - e formando um sentimento novo, sem nome, nunca antes experimentado. E você está parado, ainda. É quando essa massa se torna esse sentimento homogênio e sobe novamente fazendo com que o músculo involuntário bata mais forte e mais rápido e mais rápido e mais rápido que até parece que vai explodir, seus braços já armados, os punhos já cerrados; e volta pela garganta como um excremento a ser vomitado através de um grito e seus olhos se enchem d'água.
Agora já é tarde, numa questão de segundos você já está correndo e num golpe só, acerta de punho cheio o cara daquele filho de uma puta e sem ao menos esperar ele se reerguer, você acerta outro e ele cai no chão. Onde está minha razão? Você monta em cima dele, e grita daquele sentimento que eu ainda não sei o nome e dá uma murro e mais um soco, um por cada sentimento ali misturado e que você conhece - um pelo ódio, outro pela raiva, outro pela mágoa, outro pela decepção, outro pelas expectativas, outro pela dor, outro inconsequencia, outro pela infantilidade - sem dar intervalos até ver o sangue correndo pelas narinas do indivíduo surpreso socado ao chão.
Ali eu encontrei minha razão. Sabe quando vê suas mãos sujas de sangue e aquele seu antigo companheiro e amigo jogado no chão? você pára de socar e grita mais uma vez, de susto. Você nunca havia feito aquilo antes, como eu consegui? Aqueles serão meus instintos? E você chora desesperadamente, se levanta ainda assustado olhando aquilo ao chão, sangrando. Sai correndo procurando uma saída, procurando uma nova razão, procurando limpar as mãos, procurando voltar no tempo, corre, corre, corre e se encontra numa ribanceira e sem tempo de pensar se joga.
Por breves momentos você tem a sensação de voar de olhos abertos, perdi o medo de altura, fechei os olhos somente para sentir o vento e a gravidade me levando para baixo, abri os braços. E terminei me encontrando ao chão. Agora acabou.

A continuação de Grande Hotel ou Boa Vista será feito no próximo post.

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