Deitado, luzes apagadas. Olhos abertos somente fitando os contornos da mobília do próprio quarto. Se tivesse em quarto diferente, talvez não reconhecesse os contornos. Os olhos circulam, como olhos medrosos de animal em véspera de abate. Espera que um pensamento lhe venha à mente para esquecer o que mais lhe perturbava a alma. Foi quando o telefone tocou. Estava ao lado da cama, como em toda noite. Mas ele queria ter ao menos a desculpa de estar longe do aparelho para não poder atender. Sim, ele fazia o tipo medroso e sem coragem de enfrentar a vida. Tocou mais uma vez. Ele pegou o aparelho, o nome que aparecia: 'Thiago'.
Acordado, sentado no sofá. Olhos fechados, lágrimas correndo pelo rosto borrado de maquiagem. Rádio ligado, Within Temptation. Na verdade, não fazia muita diferença a música que tocava. Luzes apagadas, só a luz que sai do rádio fazia um vulto azulado na sala. Uma garrafa de Vodka vazia, jogada no chão. No cinzeiro, muitos cigarros apagados. Maço vazio, garrafa vazia, vida vazia. Mente em turbilhão. Aquela teria sido uma das poucas chances de ter algo de valor inestimado, alguém. De súbto, levantou-se. Esbarrão na garrafa, que foi parar longe. Parece que ele não deu muito atenção. Correu para o telefone, digitou rapidamente aqueles números que ecoavam na sua cabeça, encostou o aparelho no ouvido. Uma chamada, uma esperança de ser atendido. Demora, a esperança foi-se esvaindo. Ele tinha a coragem de esperar a segunda chamada. A segunda chamada, mais uma esperança de ser atendido.
Caio, com o telefone na mão. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Mais uma chamada...
CAIO: O que você quer?
THIAGO: Me desculpa.
CAIO: O que você quer?
THIAGO: Você!
CAIO: O que você quer?
(silêncio)
CAIO: Não quero mais saber.
THIAGO: O que você quer saber?
CAIO: Não interessa mais.
THIAGO: Te amo.
CAIO: Em duas semanas? Impossível.
THIAGO: Mas é verdade!
CAIO: Não interessa mais.
THIAGO: Eu não te interesso mais?
CAIO: Nada mais me interessa.
THIAGO: Me desculpa?
CAIO: Nada mais.
(silêncio)
CAIO: Nada mais.
Desliga. A lágrima cai do rosto de Caio. Ele se sente ridículo por estar chorando. Ele tenta se enganar. Põe o telefone ao lado da cama novamente. Vira para um canto, fecha os olhos, tenta dormir. E mais lágrimas caem. Ele grita como quem sente um dor insuportável. Abre os olhos, se debate na cama. Se levanta. Com as luzes apagadas, tropeça numa cadeira, tropeça nos próprios chinelos. Vai até a cozinha. Abre a geladeira, tira uma cerveja, abre com os dentes, se senta no chão gelado da cozinha e vira a garrafa na boca.
Thiago ainda está lá, de pé, com o telefone no ouvido. Ouve os sinais de desligado como se ainda restasse esperança de ter alguém no outro lado da linha. Quando se dá conta, chama por Caio no telefone, ele não responde. Joga o telefone longe, pega a carteira, desce até o bar que tem ao lado de seu prédio. Pede uma dose de cachaça. Não é o suficiente. Pede uma garrafa. Eles não vendem. Ele tira uma nota de vinte reais do bolso. O cara tira a garrafa do balcão, dá nas mãos dele. Ele pede um maço de cigarros, dois, seria melhor. Senta-se no meio fio. Ascende um cigarro e vira a garrafa na boca.
Eles se lembram de duas semana atrás. Sentados na mesa de bar. Risos e brincadeiras. Mas como chegaram até ali? Como estavam ali sentados, rindo-se e criando expectativas mil e mais de uma esperança?
Acordado, sentado no sofá. Olhos fechados, lágrimas correndo pelo rosto borrado de maquiagem. Rádio ligado, Within Temptation. Na verdade, não fazia muita diferença a música que tocava. Luzes apagadas, só a luz que sai do rádio fazia um vulto azulado na sala. Uma garrafa de Vodka vazia, jogada no chão. No cinzeiro, muitos cigarros apagados. Maço vazio, garrafa vazia, vida vazia. Mente em turbilhão. Aquela teria sido uma das poucas chances de ter algo de valor inestimado, alguém. De súbto, levantou-se. Esbarrão na garrafa, que foi parar longe. Parece que ele não deu muito atenção. Correu para o telefone, digitou rapidamente aqueles números que ecoavam na sua cabeça, encostou o aparelho no ouvido. Uma chamada, uma esperança de ser atendido. Demora, a esperança foi-se esvaindo. Ele tinha a coragem de esperar a segunda chamada. A segunda chamada, mais uma esperança de ser atendido.
Caio, com o telefone na mão. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Não sabe se atende, não sabe se desliga. Mais uma chamada...
CAIO: O que você quer?
THIAGO: Me desculpa.
CAIO: O que você quer?
THIAGO: Você!
CAIO: O que você quer?
(silêncio)
CAIO: Não quero mais saber.
THIAGO: O que você quer saber?
CAIO: Não interessa mais.
THIAGO: Te amo.
CAIO: Em duas semanas? Impossível.
THIAGO: Mas é verdade!
CAIO: Não interessa mais.
THIAGO: Eu não te interesso mais?
CAIO: Nada mais me interessa.
THIAGO: Me desculpa?
CAIO: Nada mais.
(silêncio)
CAIO: Nada mais.
Desliga. A lágrima cai do rosto de Caio. Ele se sente ridículo por estar chorando. Ele tenta se enganar. Põe o telefone ao lado da cama novamente. Vira para um canto, fecha os olhos, tenta dormir. E mais lágrimas caem. Ele grita como quem sente um dor insuportável. Abre os olhos, se debate na cama. Se levanta. Com as luzes apagadas, tropeça numa cadeira, tropeça nos próprios chinelos. Vai até a cozinha. Abre a geladeira, tira uma cerveja, abre com os dentes, se senta no chão gelado da cozinha e vira a garrafa na boca.
Thiago ainda está lá, de pé, com o telefone no ouvido. Ouve os sinais de desligado como se ainda restasse esperança de ter alguém no outro lado da linha. Quando se dá conta, chama por Caio no telefone, ele não responde. Joga o telefone longe, pega a carteira, desce até o bar que tem ao lado de seu prédio. Pede uma dose de cachaça. Não é o suficiente. Pede uma garrafa. Eles não vendem. Ele tira uma nota de vinte reais do bolso. O cara tira a garrafa do balcão, dá nas mãos dele. Ele pede um maço de cigarros, dois, seria melhor. Senta-se no meio fio. Ascende um cigarro e vira a garrafa na boca.
Eles se lembram de duas semana atrás. Sentados na mesa de bar. Risos e brincadeiras. Mas como chegaram até ali? Como estavam ali sentados, rindo-se e criando expectativas mil e mais de uma esperança?
continua...
A armadilha do amor se arma nessas horas descontraídas e despreocupadas, quando amamos sem se dar conta de amar. Mas assim, esse texto tem um "quê" auto-biográfico teu? (me pareceu) hahahahaha
ResponderExcluirLindo...esse texto é lindo...
ResponderExcluir"Mas como chegaram até ali?"
me pergunto isso a toda hora...
como algo tão bonito se transforma em coisas tristes e assustadoramente destrutivas?
Nesse jogo que chamamos "amor", não tem quem vence... os dois saem perdedores...
amor é um jogo de azar e isso percebo perfeitamente...
vamos um dia escrever um rascunho pra teatro juntos?
fiquei melancólico... pois estou "Caio" hoje... estou "Caio" já tem uns dias...
bjos!
Apenas a cumplicidade assassina das coisas pode amortecer o suicídio emocional que bem ou mal sempre propomos a nós mesmos... Belo texto!
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