20090329

Como são as escolhas

Entrou em casa, não havia nenhum som ali dentro. Sua bolsa, jogou no chão. Sentou-se no sofá, o controle-remoto do som estava em cima da mesa, onde costumava deixar sempre. Tocou a música que ela ouvira naquela manhã. Fechou os olhos por uns instantes, depois os abriu, com uma lágrima derramada pelo canto do olho que corria pelo rosto e se perdia no cabelo. A casa ainda estava escura, a luz apagada e o som no mesmo volume. Se levantou; não quis tomar banho, mas quis se perfumar e deitou-se. Não comeu por preguiça, ou talvez não teria nada pronto para comer naquela noite. Aquela cama estava tão vazia...
Foi numa noite de sexta-feira com a lua negra, ou nova se preferir; as pessoas pareciam andar pelas rua, como se quisessem tirar as roupas. O tempo estava abafado, um calor que parecia fazer parte do cenário obsceno que se formava ali. Ele dançava ao ar-livre e fazia peripécias com malabares nas mãos. Havia um clarão a sua volta, alguns admiravam sua destreza, outros se afastavam por medo. Algumas mulheres só o olhavam para ver seu corpo suado e bem desenhado, mesmo. Mas ele sorria, como criança boba em dia de aniversário. Jogou o pino para o ar, com a esperança de que eles caíssem de volta nas suas mãos. Mas levou uma topada de alguém a quem chamou, desatento, de 'retardado cego' que não olha por onde... Mas ouviu uma voz rouca de mulher madura lhe pedindo desculpas.
Dali, foram para um bar e conversaram durante um tempo. Já era noite de Saturno - ou sábado se preferir. Tomaram uma cerveja, trocaram piadas, carícias, indiretas. Malandro como era, pedia uma garrafa após a outra; mal sabia que se sentava com uma serpente criada, que somente se fazia daqueles olhares tolos. Acabou que o malandro levou a rasteira de seu próprio golpe. Quando tentou levantar-se para ir ao banheiro, tonteou e tornou a sentar. Ela se levantou assustada, perguntado já sorrindo pois já sabia o motivo do tontear, se ele estava bem. Ele sorriu a olhou com admiração e fez sinal de positivo e ficou pensando como ela estava ainda tão bem? Era uma cobra, como já citei.
Daquele encontro, veio mais um pelo acaso. E depois mais outros marcados. Ela morava sozinha, ele com a tia. Ela morava perto da faculdade dele. Ele saia de casa para o estágio, depois para a faculdade. Saía da faculdade cansado, então, de início passava algumas noites na casa dela. E como todo bom costume, foi se transformando em rotina e quando viram, estavam juntados, praticamente. Quando perceberam, era já tarde e ela levava no útero um fruto dessa rotina.
Na mesma noite em que ela descobriu, ele queria se deitar com ela. Ela não quis e ele quis saber o porque. Ela sempre dizia a verdade para ele, e dessa vez não foi diferente. Ela o contou o problema e já desenrolava a solução. Eles brigaram, ele dizia que queria ter o filho mas não sabia que quem o teria de verdade era ela. E ela não queria o ter. O corpo é dela, não só o corpo, mas a consciência, não só, mas a vida, não só mas a escolha. E ela escolheu por não ter. Ele não concordou, mas ela o fez.
Aos poucos ele foi sumindo. Não ia mais ligando o som quando chegava em casa, sempre um pouco antes dela, esquecendo o controle na poltrona. Não ia mais pegando a bolsa que ela jogava no chão. Não beijava a boca dela, quando ela sentava no sofá. Não ascendia a luz da sala, nem baixava o volume do som para poder conversar com ela. Não a mandava mais tomar banho. Não tinha mais vontade de fazer comida para ela. E por fim, nem dormir mais ele dormia. Não ao lado dela.

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